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Como descobri a minha 2ª gravidez

  • Foto do escritor: Paula Freitas
    Paula Freitas
  • 21 de jan. de 2023
  • 5 min de leitura

Agosto, 2022.

Fim de tarde de calor intolerável.

O ar, irrespirável, não oferecia tampouco uma pequena brisa. Mas eu, ainda assim, permanecia alheia ao facto de a minha maquilhagem estar, visivelmente, derretida:

afinal de contas, feliz, deambulava pelas calçadas de Coimbra, com tamanho brilho nos olhos, que nem criança numa manhã de Natal.

Estávamos de férias. E, pela primeira vez, com a nossa bebé.


A dada altura do dia, dei por mim a desejar jantar uma pizza embora soubesse, antemão, que a espera seria morosa: o restaurante estava lotado pelo que decidimos enveredar pelo delivery e aguardar à porta do mesmo.

Não obstante, enquanto observava os movimentos da Camila que, incessantemente, procurava fugir da ‘alçada’ do pai, sentei-me num banco que existia sob um carvalho. Às tantas, e sem nenhum pródromo, dei por mim envolta de uma intensa crise de rinite.


A sensação era a de estar a ser sufocada pelo meu próprio corpo!

Assim, saí de rompante em direção ao hotel. Tinha de me afastar daqueles alergénios.


Pai e filha foram, à posteriori, ter comigo, acompanhados pela pizza que mal saboreei.

A medicação SOS, não estava, impressionantemente, a reverter a sintomatologia.

Os espirros eram, agressivamente, constantes: perdi-lhes, inclusive, a conta.

A congestão nasal, agoniante.

Os meus olhos lacrimejavam continuamente e o rosto parecia que estava a ser insuflado. “Covid! Isto só pode ser covid”, concluíra depois de comparar tal crise com as de outrora porquanto nunca sentira algo tão intenso e asfixiante, em contexto de rinite!


Volvidos, mais ou menos, 60 minutos, experienciei um significativo alívio, ainda que os sintomas tenham perdurado noite adentro.

Entretanto, decidira que logo de manhã compraria um teste rápido para despiste da covid-19 e uma medicação mais eficaz.

No dia seguinte, acordei - na ausência de um termo de comparação melhor - de ressaca. Podia jurar que me tinha envolvido numa luta inglória.

Paralelamente, apercebera-me que a deglutição tornara-se num ato lancinante, facto que me acompanhou até ao final das férias.


O diagnóstico, essencialmente clínico, confluía para uma esofagite.

Mas porque motivo teria eu, do nada, uma esofagite?

Teria ela relação com a crise da noite anterior?

Pois, não sei e também nunca saberei com certezas.


Todavia, realizei um auto-teste com resultado negativo.

Cética, desloquei-me a uma farmácia e solicitei nova realização.

Resultado: negativo.


É. O mundo, afinal, não gira à volta da covid…


Seja como for, o que parecia resolver em poucos dias, arrastou-se por semanas.

Ademais, começara a sentir uma espécie de "bolo" na garganta e, mediante a deglutição, uma dor extrema ao nível do tórax!

Pouco demorou até começar a sentir-me asténica, constantemente nauseada e, literalmente, doente.

Nesse entretanto, já me convencera estar diante de algo mais sério e, em modo hipocondríaco, dei por mim a avançar com a possibilidade de ter mil e uma doenças embora uma tivesse ganho terreno: esófago de Barret!


Não fazia sentido nenhum eu ter tamanha lesão mas naquele momento, a minha racionalidade evaporar-se-ia com a minha sanidade.

Mas não podia ser, pura e simplesmente, uma esofagite? Podia! Mas o meu complicómetro ativara-se, fazer o quê.


O plano seria então o de realizar uma endoscopia digestiva alta.

É.

Longe vai o tempo em que, em adolescente, realizara tal procedimento sem anestesia. “Não custa nadinha”, dissera-me a minha mãe, experiente no assunto.

E eu confiei. Para nunca mais.

Portanto, desta vez submeter-me-ia a tal procedimento mas sob anestesia geral.


Endoscopia agendada, chegara então a vez de realizar as análises necessárias para.

O meu marido, médico de profissão, tratara das requisições e eu, sem a mínima curiosidade acerca do que tinha sido pedido, limitei-me a submeter à colheita de sangue.


Dias depois, num bonito dia de verão, estava eu acompanhada pela Camila, na casa dos avós, quando recebo as análises via e-mail.

Verifico que está tudo 'ok' até chegar à última página:

B-HCG : 7.2 mU/ml!


Como?


Outra vez: B-HCG : 7.2 mU/ml!


Como assim, B-HCG? Quem mandou pedir isto? E porquê?


E como assim apresentava um valor que indicava estar grávida de 1/2 a 1 semana?


(Mas quem é que descobre estar grávida com meia ou uma semana??!!).


Nesse instante, estarreci.


Ao perceber a presença do seu avô, afastei-me, gradualmente, da Camila que, indiferente à circunstância, saltitava no trampolim. O som, desencadeado pelas molas a cada salto dela, tornara-se, para mim, paulatinamente, cada vez menos audível com o meu afastamento.

Entrei no carro e, aí, silêncio.


Sentia-me desconexa porque não equacionara, até então, a possibilidade de uma nova gravidez.

Além disso, o tempo ainda nem se revelara suficiente para me fazer notar a ausência menstrual.


Não fazia sentido. Sentia-me doente, não grávida.


“Sim, é positivo” - corroborara-me, feliz, o Igor, meu esposo, aquando a sua chegada.

“Ainda é bastante precoce, pode nem evoluir, mas vamos estar expectantes”.


Que surreal! Eu não podia crer no que estava a ouvir:

o meu marido é que me estava a dizer que eu estava grávida e não o contrário!!!;

o meu marido soube da minha gravidez primeiro do que eu!!


Mais atípico do que isto, nunca vivi.


Continuei por um bom tempo no carro, anestesiada.

Tentava consciencializar-me da nova realidade.


Apesar de, no passado, termos falado em ter mais um bebé, eu, especialmente, almejara outro momento para o efeito.

Queria aprender um pouco mais a ser mãe e desfrutar da vida a três.

Mas Deus, afinal, delineara um plano diferente do meu, em termos temporais.


É.

E sendo eu “aberta à vida”, não posso, naturalmente, queixar-me de tal resultado!


[Quem desconhecer o termo "aberta à vida", pode pesquisar no Dr Google, que ele elucida].


Provavelmente, a esta altura, estarão a questionar-me acerca da endoscopia; do esófago de Barret.

Pois.

Em discussão com o otorrino, a hipótese mais plausível fora a de esofagite eosinofílica.

E coincidentemente, também engravidei. Portanto, a César o que é de César: foram dois eventos distintos que surgiram em simultâneo. Apenas isso.


As náuseas e o inespecífico mal-estar, que ocorreram em último, é que talvez tenham já sido consequência das alterações hormonais típicas da gestação.

Posto isto, decidi adiar a endoscopia até à chegada do bebé.


Atualmente, as crises de rinite mantêm-se com alguma regularidade, principalmente se diante de algum alergénio, porém, com uma intensidade menor.

Já a sintomatologia referente à esofagite parece ter cessado.

O desconforto perdurou por uns três meses, ainda que alternasse entre a melhoria e a regressão.

Nesse espaço de tempo, realizei, para despiste, uma ecografia tiroideia que não identificou nenhuma alteração relevante.





Hoje, estou feliz.

Ser mãe devolve-me à minha essência: há dois anos que o sei.

E o tanto que eu reverencio este dom.





P.S:

Meninas indispostas sem causa aparente:


Procurem, inquestionavelmente, um médico, mas antes, se “andarem à chuva”, realizem, por via das dúvidas, um teste de gravidez…

… não vá a indisposição chamar-se Francisco.




(Não, ainda não escolhemos o nome).




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