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Grávida em tempo de pandemia

  • Foto do escritor: Paula Freitas
    Paula Freitas
  • 9 de ago. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 10 de out. de 2021

Gerar uma vida num momento em que o mundo, triste e inseguro, procura restaurar-se, constitui, sem dúvida, o maior desafio das nossas vidas. Ainda assim, há brilho no ar, há brilho em nós. E, de agora em diante, o nosso amor será vivido a três.

O dia 25 de março podia ter sido só mais uma quarta-feira – similar a todas as outras – mas a verdade é que se revelou, para nós, no dia mais impactante de 2020:


o relógio marcava 9h12min quando recebemos o primeiro positivo!


Crente de que estava diante de um falso positivo, não me aquietei até reiterar o teste, mas, desta feita, através daqueles “xpto’s” que afirmam deter uma precisão superior a 99%!

Eram, então, 13h10 quando, incrédula, vi surgir no visor as seguintes palavras:


Grávida (1-2 semanas)


É.

E então a minha “ficha” caiu: grávida de primeira viagem e em plena pandemia. Uau.

A par do mundo, Portugal vivia numa circunstância sem precedentes e que em muito se assemelhava a um filme de terror. O Estado de Emergência tinha sido decretado há precisamente uma semana atrás e subitamente, o nosso lar, tornara-se também no nosso trabalho; no nosso café/pastelaria; no nosso ginásio; no nosso espaço de lazer. Vivíamos todos em pleno confinamento.


Não obstante, a nossa boa-nova foi recebida com agrado ou não tivéssemos nós escolhido o ano de 2020 para sermos pais.

Ainda assim, o ambiente e a forma como tudo se sucedeu – e continua a suceder-se – não foi, naturalmente, a que outrora tínhamos planeado.

Eu, especificamente, que sonhara ao pormenor com este dia e desejara vivê-lo intensamente, deixei que a angústia me invadisse, ainda que numa fase precoce. Sabia, antemão, que por conta do Estado de Emergência, não poderia partilhar a minha melhor fase com as pessoas-sol da minha vida e delas receber o amor que só um abraço consegue transmitir. Tudo isso, teria de ser substituído pela virtualidade ou, quando muito, pela distância física. Eu sabia-o. E assim foi.


Paralelamente, o medo de ficar infetada pelo novo Coronavírus e de, consequentemente, transmiti-lo à minha bebé, encobria também o nosso momento de felicidade.

As emoções eram mistas. O humor, lábil. E a todo instante, debatia-me, com questões do género:


"Como se vive uma gestação e se tem um bebé numa época em que as pessoas têm medo de pessoas?

Numa época em que se pratica o distanciamento social e em que uma mera aproximação de um desconhecido pode gerar uma atitude agressiva por parte de quem, inexoravelmente, reprime o mais inocente contacto?"


Pois, não sei.

E continuo sem saber.

Só sei que haverá lá momento mais emotivo do que uma gestação para se parabenizar alguém com um abraço!

Mas, inquietações à parte...

....o que é certo é que, volvidas cerca de duas semanas, dei início ao meu processo de racionalização e, à posteriori, por não deter uma varinha mágica passível de salvar o mundo, consciencializei-me de que nada poderia fazer para além de aceitar e de me adaptar à nova circunstância.

E assim, tranquila, comecei a desfrutar do meu estado de graça: sem fundamentalismos, sem dramas, sem grandes preocupações.

E vou vivendo.

E vamos vivendo. Desejando que o fim da pandemia não esteja muito distante já que precisamos de sentir, o quanto antes, o carinho – bem de perto – uns dos outros.




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