O dia em que escolhi a Enfermagem
- Paula Freitas

- 22 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de out. de 2021

A Enfermagem foi, desde sempre, uma das minhas paixões assumidas, pese embora após o término do Ensino Secundário não existissem dúvidas quanto ao curso a enveredar:
História
Posteriormente, várias experiências profissionais foram-se sucedendo, mas a realização pessoal teimava em não se fazer sentir plenamente.
Na verdade, os momentos de maior gratificação eram os passados no âmbito do voluntariado, onde a pessoa, muitas vezes esquecida pelos seus entes queridos, era o alvo do meu cuidar. E foi durante esses contactos que, um dia, decidi alterar o rumo da minha profissão e seguir aquela cuja essência não é curar, mas sim cuidar:
Enfermagem
E ao seu estudo entreguei quatro anos da minha vida.
Constatar a irreversibilidade do estado clínico e o sofrimento físico e psíquico do outro e, em simultâneo, gerir as nossas emoções pessoais, é, como já se sabe, um dos maiores desafios da Enfermagem. Ainda assim, no meu caso, a minha luta foi essencialmente outra:
[Humanos que antes de serem bons profissionais esqueceram-se de ser boas pessoas!]
Desmotivação, burnout ou pura maldade: não sei precisar o que constituía o íntimo de determinados profissionais, mas o certo é que, lamentavelmente, os conheci.
Se pensei em desistir?
Aff, tantas vezes. Afinal nunca me identifiquei com aquela Enfermagem puramente tecnicista [que muitos continuam a praticar] já que, para mim, é impossível não transpor amor em tudo o que faço.
Declaradamente – e não querendo desvincular a Enfermagem da ciência nem tão pouco romantizá-la – sinto que não devo despir-me do amor como faço relativamente à minha roupa em prol da uniformização ou abandonar as emoções no cacifo junto com os pertences pessoais.
Darei a alguém 8 horas da minha vida, e outras tantas esse alguém me dará a mim: ao entrar no serviço, entro então com tudo o que sou. O amor não fica à porta.
Em cada contacto, procuro ser mais empática do que o esperado, mais atenciosa do que o expectável, mais positiva do que o previsto.
[Ninguém merece estar a ser maltratado pela doença e ainda assim levar com a rispidez dos outros!]
E enquanto pessoa, foi no decurso destes quatro anos que me senti desafiada a aprender a lidar com o ponto de vista – extremo ao meu – de determinados profissionais.
E escrevo lidar não compreender.
Porque certas coisas surgiram para, simplesmente, não serem compreendidas.
Coisas e pessoas.
E como tal não vale a pena queimar mais fusíveis.
Um dia, uma mente iluminada [só que não] disse-me:
“Tu não vais mudar o mundo. É por pessoas como tu, que procuram humanizar a profissão, que Enfermagem está como está. A Enfermagem é uma ciência, ponto.”
Pessoas sendo pessoas!
Na altura – incrédula com tais palavras – descordei. Timidamente, mas descordei. Hoje, indubitavelmente, que volto a discordar.
[Ser Madre Teresa de Calcutá nunca foi a minha missão de vida, alto lá!]
Efeito boomerang: talvez o que esteja mesmo a faltar é esse toque de humanidade para que, em complementaridade com a ciência, a Enfermagem seja um dia valorizada.
Relativamente ao “mudar o mundo”, é, efetivamente não o posso mesmo mudar [e daria muito trabalho, não tenho agenda para isso!] mas uma pessoa de cada vez, quem sabe [e já é bom, certo?].
A Enfermagem é, incontestavelmente, uma ciência. Mas nós, Enfermeiros, nem sempre podemos curar.
Cuidar sim.
Todos os dias.
Até ao fim.
Acredito, porém, que as ações do Universo têm sempre um propósito e por isso, agora sei, que os profissionais vazios de compaixão que se cruzaram no meu caminho serviram, quando muito, como um protótipo daquilo que eu não devo ser.
Ao mesmo tempo, e ainda que colateralmente, auxiliaram-me a redescobrir-me:
Quando eu pensava não deter mais forças para enfrentar um novo dia, eis que as descobria!
Não obstante, ainda hoje tento compreender como consegui ultrapassar barreiras que até então me pareciam intransponíveis – sem descurar a força desmedida das pessoas raios-de-sol da minha vida.
Mas ultrapassei-as.
❤
Entretanto, e clichés à parte, a Enfermagem, mais do que qualquer outra valência da minha vida, também me deu a conhecer pessoas-luz. Pessoas inspiradoras. Pessoas que semeavam a tão controversa aproximação entre profissional e utente. Afinal de contas a transferência é algo inevitável: todo o ser humano causa impacto no outro.
E foram elas a parte boa de todo o processo.
Foi com elas o auge da minha aprendizagem, da minha vivência, da minha partilha, da minha humanidade.
Poder proporcionar o melhor do meu saber e o melhor do meu cuidar, transcendendo a componente física, deixava-me, a cada turno volvido, com a sensação de dever cumprido.
Ena, como foi bom foi renascer com elas!
Mas a luta prossegue.
Ai se prossegue.
❥




Uma pessoa de cada vez!!!
Sempre!!!
Amei ❤️
Obrigada Paula pela profissional que és e pelo que sei que posso contar se um dia nos encontramos, tu como profissional, eu como paciente. Não que alguma vez tivesse duvidas do ser lindo que és!!!
Beijinho
Luisa Anjos