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Relato escrito do meu parto

  • Foto do escritor: Paula Freitas
    Paula Freitas
  • 31 de dez. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 13 de fev. de 2021

13 de novembro de 2020:


O relógio marcava 6h00 quando, subitamente, uma nova sensação despertara o meu corpo sedento de descanso.

“Mais uma ida à casa de banho” – pensei.

E moribunda de sono, levantei.


Quente. Transparente. E com um odor sui generis.

Assim era o líquido que eu, aquando o levante, observava – estupefacta – a percorrer pelas minhas pernas.

Não havia margem para dúvidas: a Camila estava a caminho.


E com todo aquele desespero básico, despertei o pai e dei-lhe a boa-nova: o momento de sairmos dois de casa e entrarmos três, tinha chegado.


Ainda que soubesse, antemão, que muito dificilmente conseguiríamos chegar às 40 semanas, não esperava que o nosso encontro estivesse marcado para as 37 semanas e 4 dias.


Não obstante, tranquilizei. Afinal de contas, estava a horas de ter a minha-mais-que-tudo nos braços.

E de me livrar de toda aquela azia impiedosa.

Daqueles edemas hediondos.

Daquela insónia inclemente.


E assim, decidi tomar um banho relaxante, alimentar-me e, posteriormente, maquilhar-me – porque não? – Se era para, fisicamente sofrer, ao menos, sofria arranjada.



Eram 7h00 quando dei entrada no hospital.

Sem dor. Sem contrações. E com 2 cm de dilatação. – “Que máximo”, pensei.

“Acho que não vou querer anestesia epidural” – confidenciei, para sua admiração, [e regozijo, agora bem sei] à obstetra que me observou.


Burocracias tratadas, teste à Covid negativo: internamento efetuado.



No decorrer da gravidez a Covid privou-me da proximidade – física – dos meus raios-de-sol.

Privou-me de beijos.

De abraços.

De toques.


Nesse sentido, receava que a sua sombra malograsse aquele que seria o momento mais bonito – e assustador – da minha até então existência.


Spoiler alert: o pai assistiu ao parto.

Mas não agarrou a minha mão no auge da minha dor física.

O seu carinho, que decerto seria a melhor das anestesias, não o tive. Não naquele momento.

Porque a Covid não deixou.

Ou melhor, porque a burocracia em volta da Covid, não deixou.


Embora se fizesse acompanhar por teste negativo, a metodologia do mesmo não foi aceite, tendo sido premente realizar um novo teste e aguardar pelo resultado [que já todos conheciam!].

Tal situação, afastou-nos durante 7h e 40 minutos.



Entretanto, por volta das 11h00, conheci as tão temidas contrações e, se até então, não detinha a certeza absoluta quanto à analgesia epidural, a partir desse instante, todas as dúvidas se dissiparam.

Chegadas sorrateiramente, foram, como ordena a natureza, aumentando de intensidade e frequência.


Momentos antes, valeu-me o anjo I. que disfarçada de enfermeira, ofereceu-me o apoio que tal situação demanda.

Segurou a minha mão.

Transmitiu-me paz.

Segurança.

Empatia.


Já a dor era uma senhora quando, sentada numa bola de pilates – e com o auxílio da enfermeira – tomei um banho de água quente.

[Diga-se que foi pura e simplesmente o banho mais prazeroso da minha vida].


Entretanto a dor tornara-se excruciante.

Descrevê-la não é fácil porquanto palavra nenhuma detalha tal sensação.

Ainda assim, comparo-a a uma cólica menstrual, mas de intensidade n vezes superior.


E vencida pelo cansaço, solicitei então a epidural.


Chegada à sala de partos, aguardei, d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e, pela presença da anestesiologista.

“São só mais 5 minutos. Ela já vem.”, proferiram-me.


Mas estes 5 minutos, viraram 10, e depois 15, e depois 20 e por daí em diante.

E se no dia-a-dia estes 20-30 minutos são ínfimos, numa situação agoniante são, garantidamente, uma eternidade. Acreditem.


A dada altura, somente só, na sala de partos, atingi o pináculo da dor.

Sem a Enfermeira I. [que pertencia a outro serviço].

Sem o meu parceiro de vida [que continuava a aguardar o resultado de teste que, uma vez mais, já todos conheciam].

Sem a anestesiologista [que atendia outras solicitações].


Apenas um relógio que, nada amistoso, me informava sobre a chegada de uma nova contração.

Afff, como abominei aquele tic-tac!


Era dor da vida. Bonita, portanto. Mas era tão lacinante.

E sozinha, parecia que tudo doía mais.

Que tudo era ininterrupto.

Intransponível.

Insuportável.



Volvidos cerca de 60 minutos após solicitação da analgesia epidural, a mesma chegou.

“Tem tudo para correr bem. Só precisa de não se mexer”.

“Só”.

Pedir este “só” a alguém cujo corpo, durante as contrações, parecia tomado por um demónio, era pedir muito.

Mas lá ouvi, assimilei, e sem saber bem como, cumpri.

E tudo correu, efetivamente, bem.

Nem sempre é assim, é certo, mas comigo foi.

10 minutos depois, subi aos céus. No sentido, figurado, naturalmente.

Não obstante, a dor regressara meia hora depois. Mas com ela, o meu parceiro de vida também.

Eram 14:40. Um registo fotográfico eternizou a hora.

Nessa altura, solicitei nova dose de analgesia e, após administração, subi de novo aos céus.

As contrações, mais ritmadas do que nunca, tornaram-se daí em diante, indolores.


Tranquila, porém exausta, caí no sono.


Ao despertar, conheci, finalmente, os olhos das duas enfermeiras que me auxiliaram a trazer a Camila a este mundo louco.

E perpetuei-os.


[Vá lá que ao menos os olhos a Covid deixou-nos a descoberto].


O toque. Esse sacaninha....fazia a minha alma sair do corpo!

Mas informava-me, em centímetros, quanto faltava para conhecer a minha-mais-que-tudo. Por isso não o repugnava; compreendia-o.


A dilatação fluiu tão rápida como naturalmente e às tantas dou por mim, a “puxar”.


Pelas 15h00, o período expulsivo iniciou.


“Já vejo a cabecinha. Ai, tanto cabelinho” – afirmava a enfermeira.

E então, a cada contração – monitorizada pelo CTG – eu puxava.

Puxava.

E puxava.


Sem saber bem como, mas puxava.


Ao meu lado, o pai, um tanto impotente, limitava-se a apoiar-me verbalmente: “força, tu consegues”.

E às tantas, baixinho, eu sussurrava-lhe que não, não conseguia.


Sempre que a minha mente declarava não conseguir, o meu corpo corroborava. E as minhas forças dissipavam-se.

Por isso, a dada altura, pensei inversamente.


Restitui-me.

E voltei a puxar. Mas desta vez, acreditei.


Acreditei que conseguia.

Sem episiotomia.

Sem ventosas.

Sem fórceps.

Sem cesariana.


E consegui.

Com a força que desconhecia deter, consegui.


A forma como uma criança chega ao mundo não determina se a mulher é mais ou menos mãe; se é melhor ou pior.

No entanto, eu tinha as minhas escolhas bem delineadas quanto ao tipo de parto que queria ter.

E no que dependesse de mim, de tudo faria para o alcançar.



❤ ❤ ❤



13 de novembro de 2020, 15h40


Para qualquer pessoa: Mais um dia. Mais uma hora. Mais uma sexta-feira 13.

Mas não para nós.

Às 15 horas e 40 minutos, do dia 13 de novembro de 2020, a nossa vida ganhou um novo sentido.

A Camila nasceu. E com ela, uma mãe e um pai.


Tão delicada, mas tão forte.

Com um choro vigoroso – que preencheu toda a sala – e com os olhos mais bonitos que alguma vez vi: assim veio ela, finalmente, para os meus braços.



Parir, foi a coisa mais bonita que fiz em toda a minha vida.

Quiçá, a mais assustadora, mas bonita.


Parir envolve dor [ainda que esta seja relativa].

Envolve lágrimas.

Medo.

Gritos.

Sangue.


Mas acima de tudo, envolve amor.

Carinho.

Aceitação.

O pudor deixa de existir e as forças reinventam-se.



E agora sei, que ser mãe, é amar alguém mais do que a mim mesma.

2 comentários


lu-anjos
17 de mar. de 2021

Fantástico relato do teu parto Paulinha!!

Tão emocionante que parece que estamos a viver cada palavra escrita!!!

Como bem dizes " ... parir é coisa mais assustadora e mais bonita do mundo."

As maiores felicidades do mundo para essa família linda e abençoada!!!

❤️🌞🌷 Beijinho Luisa Anjos

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Paula Freitas
Paula Freitas
10 de out. de 2021
Respondendo a

Muito obrigada: pelo carinho, pela leitura ❤️ Beijinhos

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